Rio, teu cenário é uma beleza de riqueza

José Márcio Camargo: “É impossível precificar a beleza. É difícil cobrar para uma pessoa se locupletar com o Corcovado.”
Foto: Ariel Subirá

José Márcio Camargo é apaixonado pelo Rio de Janeiro. Tanto que, como ele faz questão de esclarecer, não é um economista que trabalha em questões urbanas: a exceção é a cidade que ele escolheu para morar. “Minha única inserção na economia urbana é o Rio de Janeiro. Isso vem do fato de que adoro essa cidade e, por esse sentimento, comecei a pensar nela. Mas uma coisa que me impressiona é que todo mundo acha essa cidade espetacular. Mas não vejo nenhum carioca cuidando dela”, pontuou, para início de conversa.

A relação do economista com a cidade é longa. Começou em 1971. Tempo suficiente para muitas conclusões. Uma delas é a de que a cidade do Rio de Janeiro não existe sem o estado do Rio de Janeiro, do qual ele aponta três regiões estratégicas:

“O Sul, geograficamente bem localizado e próximo de grandes centros de consumo; o Norte, que já foi mais bonito, até descobrirem o petróleo, e onde, por alguma razão, a agricultura nunca funcionou; e o Triângulo Mágico (Parati, Búzios e Angra dos Reis). Conheço muita coisa no mundo, mas essa é a região mais espetacular que conheço, pela combinação única de água doce e água salgada, montanha e floresta. Que região do mundo, numa área tão pequena tem essa combinação? Em uma hora, você muda de ar, de ambiente, de vida, e isso é maravilhoso”, ressaltou.

O estado deveria se concentrar em manter a beleza que lhe é natural e sua grande riqueza. “Que São Paulo e Belo Horizonte tenham atração mórbida pela indústria, entendo. São horrorosas, não têm nada belo ou agradável para se ver. Não dá para comparar. O problema é que a beleza é um bem público no sentido de que não tem preço. É impossível precificar a beleza. É difícil cobrar para uma pessoa se locupletar com o Corcovado. Quando é um bem privado, você cobra uma mensalidade, como nos clubes, onde o prazer compensa o valor da mensalidade. Mas no Rio de Janeiro, o que tem de riqueza é a beleza”, avaliou.

O Rio de Janeiro deveria, portanto, criar a economia da beleza, calcada no que os economistas chamam de externalidade de bem público, sugere José Márcio, certo que de coisas a que todos têm acesso, ninguém cuida. “A humanidade só cuida do que paga. Se não paga, se pode se locupletar com a paisagem ou coisa, você vai usando.”

A crítica vem acompanhada de um reconhecimento: cuidar do Rio não é tarefa simples. “O estado é fundamental. Estado que gera incentivos e menos proibições. Como criar instituições que gerem o incentivo correto para que as pessoas cuidem da cidade? Não adianta proibir, não adianta censurar o mal educado. É assim.”

Economia da beleza e o incentivo correto

Exemplos não faltam. Centro da região metropolitana, a baía de Guanabara é, segundo José Márcio, o projeto de maior retorno econômico e social para a cidade. “No dia em que a baía de Guanabara for limpa, o fundo da baia vai valer muito. Esse é o maior projeto de transferência de riqueza que a cidade poderia fazer. É um sinal de que preservar a beleza do lugar é parte do projeto de ocupação da cidade, o que muda a forma como as pessoas vêem a cidade”, explicou.

Economia da beleza não é economia de entretenimento. “A cidade deveria ter por princípio valorizar o bem-estar. Por que o Rio não tem um centro médico espetacular? Médico, certamente, valoriza o bem-estar. Isso significa que você valoriza menos dinheiro porque tem mais bem-estar. Em São Paulo, você precisa de mais dinheiro”, comparou.

O Rio de Janeiro esbanja vantagens para atrair tecnologias e profissionais liberais, para quem o estado deve mirar em suas políticas de incentivo. “As pessoas respondem a incentivos. É preciso gerar emprego para pessoas pouco qualificadas a partir da atração de pessoas qualificadas que sejam capazes de gerar empregos para pessoas pouco qualificadas. A gente tem de estar muito preocupado em gerar os incentivos corretos”, afirmou.

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