Quanto vale uma praia?

Augusto Ivan: “Não estamos caminhando tão mal assim, temos muitos exemplos positivos”
Foto Ariel Subirá

Não houvesse a cidade não haveria natureza. Não houvesse gente morando, a cidade não estaria preservada. O urbanista Augusto Ivan é otimista. Em quinze minutos, enumerou exemplos de experiências que deram certo, apesar da tão alardeada má educação da população. Do Parque de Madureira ao Parque do Flamengo, de Copacabana ao Corcovado, a inserção de novos elementos na paisagem da cidade demonstra que se a natureza é bela, os elementos postos sobre ela são igualmente espetaculares.

“Nossa graça é também nossa desgraça. O hábito de destruir a natureza, esse medo e pânico dela, deve ter vindo de um lugar que desconheço. Todos nós somos um produto de misturas das mais gerais e criamos uma cultura um pouco diferente do resto do país”, analisou.

A cidade cresceu convivendo com a natureza, defendeu Ivan. Uma relação conflituosa mas essencialmente rica.”Mesmo quando não era poluída a Lagoa, os peixes morriam. A natureza não é estranha à vida. Em Paquetá e Santa Teresa há um modo particular de vida e um tipo especial de gente. Bairros como a Urca adquiriram identidade muito própria por causa da presença da natureza. O Parque de Madureira deu certo porque atende  uma população que estava ansiosa. É uma natureza domada que dá diversão”, ressaltou.

Se a construção do Cristo fosse anunciada hoje, provavelmente estaríamos preparando um abaixo-assinado contra, ele brincou. Mas os elementos inseridos na paisagem, por sua vez, criaram uma harmonia, ele empunha a bandeira.  “Vêm da época do Getúlio as primeiras experiências de remoção de favelas na Lagoa, que foi sendo tomada por uma classe de renda muito mais alta, o que fez com que os favelados acabassem saindo dali. Num momento posterior, a gente chega a uma ocupação que hoje também seríamos contra: o Aterro do Flamengo. A gente tem uma tradição de parques sem igual na América. O Passeio é o primeiro parque público da América”, exemplificou ele, para lembrar que reclamação demais é bobagem. É desconsiderar um longo trabalho feito décadas atrás e que deve ser aproveitado.

A praia tem preço

Medir a riqueza da beleza pode ser difícil, mas Augusto Ivan já fez algumas contas. No início dos anos 2000, percorreu a praia de Copacabana e, metro a metro, mediu como se movimenta a economia nas areias da praia famosa do Rio. O resultado foi o estudo intitulado “Praia de Copacabana: um ícone carioca”, publicado na revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

“As praias são o Rio de alguma maneira. Elas são tão públicas que já não são mais praias. Esse estudo era sobre como a praia do Rio é especial. Sempre me espantava ver uma montanha de gente trabalhando na praia de manhã cedo. Durante três meses, contamos todos os camelôs, quiosques, gente de hotel, até a cigana e os meninos que fazem a escultura de areia. Chegamos a um número e calculamos aquilo em valor. Contei 20 mil pessoas empregadas na orla de Copacabana que gerariam um emprego indireto para 100 mil pessoas”, explicou.

No balanço feito pelo urbanista, o faturamento na praia era equivalente ao orçamento da cidade de Nova Iguaçu.

“Copacabana também é espetacular. Apesar dos prédios altos, dos hotéis, se tirou partido econômico da paisagem. Não estamos caminhando tão mal assim, temos muitos exemplos positivos. Enfim, a paisagem da cidade é democrática”, finalizou.

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