Vamos combinar?

Leona Forman, da Brazil Foundation: o importante é combinar, que significa agir de igual pra igual. Foto/Ariel Subirá

Chegou a vez da plateia falar. E a primeira pergunta foi exatamente sobre a articulação possível entre as instituições e movimentos, uma eventual cooperação entre elas. Um dos momentos mais instigantes do Rio de Encontros, as respostas dadas demonstraram que ainda há um bom caminho a ser percorrido quando o que está em jogo é o trabalho conjunto.

“Nunca tivemos uma conversa para ver o que podemos fazer juntos. Esse é um desafio maior que temos. As pessoas trabalham cada uma para o seu próprio universo. Por razões óbvias, claro. Vocês já agem muito na área de informação, o que é importantíssimo para poder chegar à ação. Mas pouco se falou de duas coisas: recursos para fazer tudo que gostaríamos de fazer, e ação, que ainda está num estágio incipiente. É importante ter informação, mas é preciso ter uma ação. Como a ação da panela de pressão se realiza para que o jovem sinta que foi ouvido? Não basta perguntar e ouvir a resposta, o importante é combinar, que significa agir de igual pra igual. Como cada um de vocês vê o combinar para poder ter a ação além da informação?”
Leona Forman, Brazil Foundation

Thereza Lobo – Se há alguma coisa difícil é fazer com que se desarmem os interesses privados das organizações. A gente acusa muito o poder público de que os setores não conversam. Mas a sociedade civil também tem uma dificuldade enorme de se articular. Vi milhões e milhões de dólares que iam para países da África e da América Latina e esses países não conversavam. Eu e Miguel Lago sentamos com o Unicef e queremos sentar com o Instituto Rio. Mas há uma dificuldade inerente. Cabe a nós e exclusivamente a nós. Não precisamos de nenhuma tutelagem para que isso aconteça. É a nossa função.

Luciana Phebo – No nivel comunitário, lá dentro, quando há composição dos grupos articuladores locais, o ‘vamos combinar’ acontece. Numa mudança de relação, quando a gente fez o encontro dos meninos com o prefeito do Rio, eles não eram pedintes: eles disseram ‘nós somos a força e sabemos o que você precisa fazer’, numa tentativa de deixar claro que ‘aqui você não é o todo poderoso, seu poder público’. Em relação à ação, participar é uma ação para o adolescente. É uma condição de desenvolvimento. Quando ele participa, ele está agindo.

Cindy Lessa – As mudanças são moleculares e, às vezes, não são tão visíveis assim. Isso tudo aponta que ações estão acontecendo. O que falta, além de amadurecimento democrático e político, é infraestrutura para o Terceiro Setor. Não é uma passeata, é toda uma organização de uso de espaço urbano. O trabalho é um início dessa infraestrutura em que o cidadão cria o ambiente onde a ação pode acontecer. O cidadão precisa ter a agenda na cabeça.

Anabela Paiva – Esse espírito de integração já é consenso. Não se vai avançar se não criar sistemas de integração na sociedade e na gestão pública. É uma construção. Um vai ter de ouvir o outro e começar um caminho de diálogo.

Miguel Lago – Estou há pouquíssimo tempo nesse setor. E há causas estruturais, como a falta de transparência e concorrência por recursos públicos. Por mais bonito que seja, são organizações. O objetivo último de toda organização é se perpetuar. Quando você tem esse problema que quer remediar para justificar sua existência, é difícil ser transparente com relação aos seus pares. Existe uma dificuldade de dar transparência ao trabalho e também uma cooptação por parte do setor público. E, diante desses dois problemas, dá para fazer alguma coisa. O Meu Rio não quer estar em concorrência com ninguém. A gente não ia pautar nossa ação na participação voltada mais para política pública. O Meu Rio é mais de ação que de informação. Esse é um problema estratégico. Nosso código é aberto, qualquer organização pode pegar e montar um site com base em nosso código. É muito difícil ter organização entre nós. É preciso olhar de forma crítica os indicadores. Um exemplo concreto é a redução de emissão de gases de efeito estufa. A prefeitura diz que fechou Gramacho e atingiu a meta. Mas não diz como calcula o inventário. É muito perigosa a apropriação do discurso, pautar política pública unicamente por um indicador. Queremos melhorar a educação para avançar no Ideb? Não faz sentido. Temos de tomar muito cuidado com os indicadores.

Aspásia Camargo: Com essa ilusão de que temos riqueza, não estamos sendo criativos para sair da pobreza. Foto/Ariel Subirá

“É um privilégio ouvir as instituições e seus resultados. Mas, ao mesmo tempo, acho que paramos no meio do caminho. Houve avanço nas políticas públicas? Onde e como? Sou a panela de pressão mais explosiva nessa sala. Minha percepção, entendendo tão bem o trabalho que vocês fazem, é de que mais importante que a própria política é a verdade. Estamos despolitizados. Ser tolerante na política não significa ser omisso. Nossas políticas estão velhas, caducas.Quando você fala com gente de carne e osso é uma tragédia. O Ideb, frágil, sai de 4.7 para 5.4 e todo mundo fica conformado com isso. Tem de dizer as fragilidades e tem de dizer as forças. E botar no papel. Até os números mais elementares, que deveriam nos orientar, são falsos. A cidade é repartida em 15 critérios diferentes. E, no final, são critérios impossíveis de comparar o que quer que seja. O que aconteceu aqui que melhorou? Ah, em Bom Sucesso melhorou a gravidez na adolescência? Até hoje ninguém acordou para as políticas equivocadas. Quem sabe medir a economia do Rio de Janeiro? A qualidade social dessa cidade é péssima. Com essa ilusão de que temos riqueza, não estamos sendo criativos para sair da pobreza. Temos de ter coragem de politizar as coisas quando é preciso.” 
Aspásia Camargo

Thereza Lobo –  As informações são as mesmas? Essa é uma provocação absolutamente legítima. Há um cheiro de velhice no ar no que diz respeito a esses indicadores. Somos pautados pelo poder público. Sei quase todos os indicadores de cor e uma das coisas que se discute é como trabalhar mais indicadores. Se depender da imaginação criativa eles não vão parar. Mas indicador só tem razão de ser se vai ser utilizado. Eu não quero um indicador que tenha morte súbita, que não ganhe vida própria. Há necessidade de oxigenar a informação, mas até nisso a gente tem de combinar. Para evitar que cada um saia com seus indicadores e amanhã a maioria deles sequer chegue até a praia. Dá para parar de falar de mortalidade infantil ou distorção idade-série? Não dá. Temos, na cidade do Rio de Janeiro, padrões de mortalidade africanos. Não tem como fugir, eles dizem alguma coisa. Mas como criar outros, inclusive que introduzam algum grau de mudança que a cidade está vivendo? A cada espaço aparece um núcleo diferenciado de problemas e eles têm de se falar.

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2 respostas em “Vamos combinar?

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