O novo carioca

Jorge Barbosa, professor da UFF e coordenador geral do Observatório das Favelas: o Rio é uma cidade negra. Foto/Ariel Subirá

Jorge Barbosa anda incomodado com perda de utopias que, segundo ele, muitas vezes são substituídas por planejamentos estratégicos. Como pensar a  cidade a partir de um futuro generoso e não de um presente marcado por contradições? Segundo Jorge, a cidade precisa vencer a naturalização das desigualdades e a incompatibilidade entre cidadania e hierarquias, e reconhecer as favelas como parte de seu território. As políticas públicas, incompletas e fragmentadas, são outro entrave a ser superado.

“Hierarquias são modos descricionais de poder. O espaço se revela como reprodutor das hierarquias. O espaço socialmente construído entra no processo de consolidação das hierarquias”, afimou o geógrafo.

Como essas hierarquias se reproduzem como máquinas de desigualdade social? “Pelo poder econômico extremamente forte, que se revela a partir do domínio dos meios de produção e circulação, que vai reforçando as diferenças. Mas isso também representa o poder de simbolizar quem é o outro”, ele analisou, ao ressaltar que estamos sendo marcados por uma sociedade em que a negação da presença do outro constitui também formas de hierarquias que banalizam a vida de homens e mulheres.

“Nós queremos mais o privilégio que o direito. O privilégio é uma estrutura de poder extremamente violenta, do ponto de vista inclusive simbólico. Vivemos numa sociedade extremamente violenta, incapaz de lidar com o conflito, que é uma afirmação de diferenças. Mas a nossa sociedade nega o conflito a partir da diferença”, Jorge acentuou o paradoxo.

A disputa pelo direito à cidade é uma construção histórica. As favelas, que se expandem e se consolidam, são marcadas pelo paradigma da ausência e da carência. Isso significa, de acordo com o coordenador do Observatório das Favelas, o extremo de apartar o outro, o que gera a distinção territorial de direitos. Somos mais ou menos cidadãos, dependendo do território que habitamos.

“Nosso corpo é a corporeidade da cidade. E há uma distinção no modo como somos tratados como pertencentes ao mundo”, ele disse e deu exemplo dos recortes que confirmam essa distinção: “A Avenida Brasil tem a maior concentração de espaços populares e lá não há um cinema, um teatro, uma biblioteca, o que significa que os investimentos públicos na cultura não são para lá direcionados. Não é negado só acesso a bens públicos, mas o direito a viver numa cidade. Muitos desses territórios são ilegítimos, o que torna seus habitantes também ilegítimos, pois lhes é negado o direito de habitar a cidade”, defendeu Jorge.

O Rio é uma cidade negra

Jorge Barbosa: perda de utopia é a perda da capacidade de produzir sentido para a vida. Foto/Ariel Subirá

A questão é profunda e não é apenas uma relação de classe: é também de gênero e de raça. Historicamente, as favelas se impõem como recorte racial. “A cidade é negra, de cultura e corpos negros. Mas nós negamos essa verdade. Estamos diante desse processo crítico de identificar que cidade é essa, que é legítima para uns e não para outros. Que cidade é essa que nega o direito à visibilidade?”, questionou.

Como conciliar equidade e cidadania e pensar a discussão do equitas como um tratamento imparcial é imprescindível superar a naturalização das desigualdades? “Não dá mais para tratar igualmente os desiguais. Como pensar, sem pensar na diferença? Como incorporamos a diferença no processo de construção da cidade e a construção do espaço?  Do samba ao funk, os jovens já foram criminalizados. Como se supera isso, se não a partir da diferença, que é constitutiva do mundo?”, Jorge lançou muitas perguntas, para as quais há poucos em busca de respostas.

Jorge Barbosa propõe uma inflexão territorial da política urbana. “A política pública urbana se confunde com a política pública de direitos: e um dos direitos fundamentais é o direito à morada, à capacidade de autonomia. Há uma necessária inflexão territorial. As favelas e periferias precisam alcançar, minimamente, os níveis médios da cidade como um todo”, ele tomou a defesa e ponderou que a política pública deve ser também de reconhecimento de sujeitos sociais capazes de intervir. O binômio lugares carentes-pessoas carentes é uma simbolização violenta e destrutiva de pessoas, homens, mulheres e cidadãos.

Nesse processo, a arte e a cultura assumem importância fundamental. É a partir delas que se dão os encontros. “À arte e a cultura não convêm um serviço de mercado. O que falta na nossa sociedade não se responde apenas pela objetividade. A perda de utopia é a perda da capacidade de produzir sentido para a vida. Estamos no limite entre o cidadão e o consumidor. O que queremos ser? Queremos bens que denotem status ou queremos ter uma vida pública, ser cidadãos que entendem a cidade como um bem público e não como uma propriedade privada?

A mobilidade é essencial. E não se trata de transporte, Jorge fez questão de demarcar a diferença e o abismo entre a realidade que se vive e o ideal de cidade, para a qual é preciso construir um novo sentido de apropriação e  e uso. O Rio não dispõe de uma política de apropriação plena, capaz de mobilidade, mas é indispensável dar a vez ao novo carioca: “O novo carioca é aquele capaz de estar em todos os espaços, de ter uma fruição e uma presença em toda a cidade. Essa é uma estratégia: construir a possibilidade de mobilidade”, Jorge Barbosa deixou o recado.

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