Cidade fragmentada

Manoel Ribeiro, arquiteto e urbanista: Marechal Hermes, Deodoro, Madureira, Guadalupe, um olhar sobre o subúrbio. Foto/Ariel Subirá

Como produzir espaços que fortaleçam a cidadania e a equidade urbana? Essa foi a pergunta a partir da qual o arquiteto Manoel Ribeiro guiaria sua intervenção.

As hierarquias entre os países estão em movimento e, mesmo essas hierarquias vêm se esgarçando em função do papel que algumas cidades passam a ocupar no cenário mundial. Algumas cidades, hoje, têm mais importância que alguns países. O arquiteto Manoel Ribeiro iniciou sua fala com o geral para chegar a um particular necessário: o lugar do subúrbio num Rio de Janeiro de estruturas cambaleantes.

Cidades em rede, como Nova Iorque, Tóquio, Londres e São Paulo vêm se sobrepondo aos seus estados nacionais, respondendo mais a interesses de suas corporações e, consequentemente, se distanciando das populações. “Lá estão os serviços e os centros decisórios, uma contingência que impõe a necessidade de de criar infraestrutura de segurança e conforto inerentes aos grupos que decidem quais cidades vão fazer o quê”, explicou.

A ideologia que orienta as transformações territoriais, portanto, favorece a fragmentação. “E a elite que vive nas cidades, esse fragmento superior da estrutura do mundo, participante do mundo veloz, citando Milton Santos, necessita dos homens lentos, dos subalternos que lhes dão suporte. Enquanto os centros são bem dotados de infraestrutura, a periferia é mais dispersa, com queda de qualidade urbana, onde tendem a viver os mais pobres”, comparou.

A mobilidade e a lógica do mercado

As periferias são segmentos marginalizados. As favelas, no caso brasileiro, são resistências físicas e territoriais às forças centrífugas do mercado. E, dentro delas, também existem as áreas mais valorizadas,  numa inversão ao que ocorria antes. Hoje, lugar bom na favela é no alto. “A Zona Sul das favelas é o alto do morro, com panorama e brisa que refresca. Houve uma alteração da mobilidade dentro da favela, assim como acontece nos territórios recorrentes da cidade formal”, afirmou. Já os condomínios fechados, o Recreio e  Vargem Grande formam outra categoria. “Lá, há um certo choque entre classes sociais e padrões imobiliários. O Barrashopping, que  já foi território exclusivo, é mais um exemplo da movimentação de que as hierarquias estão sendo alvo na cidade”, completou.

A hierarquização, portanto, se dá em todas as áreas da cidade. “A praia, por exemplo, é um zoneamento hierarquizado bastante rígido: na Praia do Pepê, a estética e as práticas são para gostosas e fortões. Ipanema também tem hierarquias. A Teixeira de Melo era uma área deteriorada, que depois da construção do elevado, se gentrificou. A intervenção pública ali mudou o valor da esquina da Barão da Torre”, Manoel Ribeiro enumerou alguns dos lugares onde as hierarquias têm se alterado.

É possível identificar, pelo comportamento das pessoas e pelas construções, a área em que se está. “Mesmo quando se identifica uma planilha de investimentos públicos, se identificam as hierarquias. Nas favelas, existem investimentos em melhoria urbanística, o que vem devolver o valor dos entornos.”

Manoel Ribeiro: é essencial combater os individualismos extremos que suplantam o sentimento de solidariedade. Foto/Ariel Subirá

A cidade como ágora

Os subúrbios, no entanto, andam esquecidos. Lá, os investimentos são mais pautados pela necessidade do deslocamento do que pelo prazer da permanência, alertou o arquiteto.

Quais as estratégias, então, para promover a integração? A solução é fortalecer a democracia direta e considerar as diversas vontades, sugere Manoel: “Uma boa oportunidade teria sido o projeto olímpico. A cidade precisava ter se discutido anteriormente sobre o que precisava, onde e o quê. E a partir daí montar um projeto. Foi feito o inverso e se perdeu uma grande oportunidade de considerar as diversas vontades e de reconhecer a cidade como ágora”, ele avaliou.

Marechal Hermes, Deodoro, Madureira, Guadalupe. Na proposta de retrofit do subúrbio carioca, uma região cuja configuração se repete em outros territórios, está claro para Manoel que primeiro é preciso entender o entorno para depois saber como as favelas vão se colocar ali dentro.

O arquiteto tem pronto um projeto em que propõe desprivilegiar o motorizado, criar áreas públicas, abrir o espaço público. Uma reconfiguração em que tudo é ligado por redes de ciclismo, com pontos entre o local e o regional. “Você precisa pensar o subúrbio. A busca das respostas às questões colocadas aqui transcende a questão do desenho urbano, é uma busca que atinge dimensões imateriais”, acentuou.

O projeto, cuja ideia é pensar primeiro o bairro, foi entregue ao prefeito. “É essencial combater os individualismos extremos que suplantam o sentimento de solidariedade; fortalecer o papel do estado como mediador do acesso à cidade; reconhecer a diversidade cultural como valor; recolocar a economia a serviço da política de interesse público; combater a precificação das pessoas, da saúde e da natureza; e, fundamentalmente, garantir a preservação da vida como fator primordial”, argumentou.

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