Cidade interditada

Jorge Barbosa, Manoel Ribeiro, Pedro Paulo Cunca Bocayuva e Mariana Cavalcanti: hierarquias dos espaços da cidade. Foto/Ariel Subirá

“O que acrescento a esse debate é como essas questões se articulam com o regime de visibilidade e invisibilidade. Se tomarmos quatro grandes obras do PAC, a passarela feita pelo Niemeyer na Rocinha; o elevador do Cantagalo; o teleférico do Alemão; e a Biblioteca Parque de Manguinhos, há aí um mise en cene da integração, que torna invisíveis outras coisas, em particular o subúrbio. As grandes obras não fazem parte da nova gramática dos projetos urbanos.” (Mariana Cavalcanti)

“A cidade é um lugar de encontro de diferentes. Ai está o fundamento da contradição. Precisamos produzir um significado para a cidade, como o lugar de viver de um cidadão complexo. O que vejo nessa cidade é que há uma desconstituição da sociedade civil, que pouco tem sido proponente. Como pensar um projeto de circulação com um projeto social? A questão é visualidade. Determinadas intervenções inviabilizam outras. Os modos de representação da sociedade civil também perderam sua dimensão utópica e se encarregaram de um pragmatismo que chega a ser vil. Estamos em um momento de reconstruir essa sociedade civil. Democracia não é obra do estado, é obra da sociedade civil. Nesses últimos quatro anos, tivemos a pior câmara de vereadores da história da cidade. E corremos o risco da repetição.” (Jorge Barbosa)

“As obras dão visibilidade a si próprias. O teleférico não carrega carga, não ajuda, e ainda por cima tira as pessoas da rua. Elas vão para a estação do trem e, consequentemente, o comércio de rua tende a morrer. E o comércio que se instala em torno das estações é licitado pelas concessionárias. ” (Manoel Ribeiro)

Jorge Sapia: A cidade está interditada para a maioria da população. Foto/Ariel Subirá

“A cultura. e algumas manifestações, talvez tenham mostrado um novo sentido para a mobilidade na cidade. São exemplos de que esses sujeitos celebrantes estão produzindo a possibilidade de encontros que vão além dos dias de carnaval. A cidade está interditada para a maioria da população.” (Jorge Sapia)

“É preciso fazer uma leitura transversal do Morar Carioca. Não há integração, os projetos não são pensados de maneira integrada. Não são politicas públicas, são programas que estão ligados à agenda hegemônica. Como estabelecer uma política de oferta? O que houve foi uma desqualificação e  muitas absorções. O mundo popular barganha casas, culturas, e é atravessado pelo fisiologismo dos partidos. O que prevalece é a valorização do espaço territorial. Tudo isso compromete o macroprojeto.” (Cunca)

“Política pública é fragmentada e setorial, é incompleta. No caso do PAC, não é projeto, vive de urgência, as obras são incompletas, os materiais são desqualificados. Os programas são regidos pela urgência, pelo pragmatismo e pela  incompletude. Há incoerência particularmente na política urbana, na qual o território é apenas um cenário onde não há pessoas. É um mero objeto sem sujeitos. A definição da cidade não é a partir do plano, é a partir do sujeito. O plano ou técnica é uma mediação. Quem é o sujeito? Qual o projeto de cidade? A cidade tem de saber qual é o espaço de disputa.” (Jorge Barbosa)

“A centralidade está nas construções das redes sociais: o território favelado é produtivo e central. A ferramenta que sugiro é pegar todos os lugares objeto de intervenção sem escuta e ver os projetos que foram criados, observar, medir e criticar. Estenderam a cidade especulativamente e não trataram dos lugares. E cada vez que eu puxo e estico, a cidade fica mais cara. É preciso debate técnico. Por outro lado, a cidade burguesa também não discute qual a sua função na dinâmica da cidade.” (Cunca)

José Marcelo Zacchi, do IETS: fFalta gestão no território, faltam espaços de participação e palcos institucionais. Foto/Ariel Subirá

“É um exagero dizer que a segurança coordena toda a política do Rio de Janeiro hoje. A hipercentralidade da segurança é mais midiática. Temos baixa tradição de participação em política pública. A vida republicana é o nosso problema. Falta gestão no território, faltam espaços de participação e palcos institucionais. Numa cidade de seis milhões de habitantes, sem que se invista em institucionalidade e em canais de participação, nada é possível.” (José Marcelo Zacchi, do IETS)
“Acabar com a operação faroeste é chave. Mas constiuir uma nova polícia não é uma necessidade. Eike Batista financiar os postos de segurança pública no Alemão tem a ver com a privatização de um bem público comum. A política de segurança não pode ter um desenho de fuga das exceções. Tem de ter um policiamento comunitário bacana, mas isso não significa reestruturar a polícia.” (Cunca)

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