Nem tudo é o que parece

Eliane Costa – professora e consultora de gestão cultural. Foto: Ariel Subirá

Eliane Costa está acostumada a diversidade. De sotaques, de pessoas, de projetos. Conhece bem as turmas que fazem o Nós do Morro, o Enraizados, o Vídeo nas Aldeias, o Visões Periféricas, o Tramas Urbanas, o Fora do Eixo. A explicação para uma lista de relações que só cresce é uma só: cultura da periferia e cultura digital são dois segmentos emblemáticos dos anos que passou à frente da gerência de patrocínio da Petrobras. Com um faro raro para o que merece – ou não – patrocínio na política cultural, ela aprofunda a conversa e mostra porque a  interseção da política pública com a periferia, particularmente no contexto digital, foi um marco.

“Onde se vê soluções realmente potentes e realmente criativas é na favela. É lá que estão os jovens da UPP Social, da Universidade das Quebradas, do Parceiros RJ”, Eliane afirma com veemência. Mas a leitura não pode ser rápida nem apressada. Toda a movimentação a que se assiste – e que quem faz os projetos vivencia – começou bem antes.

Eliane Costa agora se dedica a levantar a genealogia desses projetos de que tanto se fala. “A criação das ONG’s, décadas atrás, foi fundamental na formação das lideranças da maioria deles”, ela avalia e confirma duas datas e siglas emblemáticas: o ISER (1979) e o Ibase (1981). “O Ibase, por exemplo, foi fundamental também na questão da internet porque teve, além de sua própria missão, uma interseção direta com a questão digital. Há toda uma construção de redes no Rio de Janeiro anterior às redes digitais, o que foi decisivo para a formação e articulação de quem hoje está à frente.”

A trajetória, claro, não é linear. E é exatamente com esse histórico que Eliane também se ocupa atualmente: refazer esse trajeto para entender como o Rio passou do apartheid social vivido em toda a sua potência na década de 1980, à reação. “Houve todo um contexto que explodiu radicalmente no início dos anos 1990. Em julho de 1993, o massacre da Candelária; no mesmo 93, a chacina de Vigário Geral. Tudo muito justificado pela mídia. Em 1994, Zuenir Ventura escreve Cidade Partida, surgem o Viva Rio, o Afroreggae, os blocos de rua, que fazem a ocupação do espaço público de forma livre. Em 1996, o Viva Rio se apresenta como uma rede de redes. Todo mundo sabe que a partir de 1995, a internet trouxe novos protagonistas e fez uma reconfiguração das possibilidades de comunicação”, analisa.

A cidade reagiu e Eliane sustenta pelo menos uma hipótese: “De alguma forma, com o cruzamento das redes lá atrás, com o atravessamento da cultura da periferia, dentro de uma perspectiva de um presidente cujo paradigma era diferente para o poder, o Rio de Janeiro descobre suas periferias. Ao mesmo tempo em que o Brasil, periferia global, começa a ser descoberto.”

As representações sociais vão mudando com o tempo, assegura Eliane. “A favela foi lugar de comando do tráfico, com uma criminalização total de suas culturas. Depois dessa fase mais crítica, há a representação atual: lugar de originalidade, ousadia e descoberta de novas soluções. As nossas periferias, como o Brasil no cenário internacional, estão bombando. Isso nos traz grandes desafios e muitas oportunidades. É o que torna o Rio de Janeiro mais possível.” Fechou.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s