Empreendedorismo e sustentabilidade, o que a plateia quer saber

Rio de Encontros: empreendedorismo e sustentabilidade (Foto: Ariel Subirá)

No caso do projeto realizado pelo CEBDS no Chapéu Mangueira e na Babilônia, há uma pressão pelo tempo: das empresas, do governo e ao mesmo tempo é uma relação que está sendo estabelecida com a comunidade. Como se dá a questão da confiança?

A primeira impressão é que há uma tendência dos atores em mostrar um resultado que ainda não foi adquirido. Isso gera desconfiança. Será que isso é de fato em mão dupla? Está incluída no roteiro da Rio +20 a visitação ao Chapéu Mangueira. E parece que é para inglês ver. Temos de enfrentar essa percepção o tempo inteiro. Tem de ter resultado para aparecer, para a eleição, para a Rio+20. Essa tensão é natural que haja. A desconfiança é inerente porque as relações ainda se estão por construir. Não dá para dominar todas as intenções.
Mariana Meirelles, CEBDS

O que vocês têm feito em educação e comunicação para aumentar o nivel de confiança entre as pessoas e para qualificar as ações de um empreendedorismo local sustentável?

Desde 2002, quando comecei esse trabalho, meu pai leva texto do Bertold Brecht e, durante a leitura, a pessoa fala o que ela quer. O complicado quando você leva um texto falando de desigualdade social, de um ponto de vista mais abstrato, é que é muito dificil de as pessoas compreenderem. Elas dizem ‘Ah, o texto falou que tem muita exploração’, mas não há uma discussão mais profunda nem mais específica. As pessoas têm confiança no vizinho e na família, mas não no resto. O que se observa é que, primeiro, a educação é complicada de se fazer em nível mais abstrato, tem de se olhar a coisa mais na prática. Em segundo lugar, não há confiança, o que dificulta o empreendedorismo de um modo geral.
Emmanoel Boff, UFF

O empreendedorismo foi politizado, deixou de ser uma agenda só do capitalismo e passou a ser uma agenda do campo social. Passou a ocupar o lugar da palavra diversidade. Geralmente, a gente vê a plasticidade do capitalismo que opera coisas do campo social. Isso vai render frutos. Pode ser uma palavra que atraia novos atores para o campo da transformação social, o que pode trazer um frescor para a juventude. Me parece que o empreendedorismo depende de ambientes de encontros, de combinaçãoes, que determinam seu sucesso ou insucesso. Nesse campo de encontro de atores sociais diferentes, às vezes, quem pensa o país e o empreendedorismo, olha para esses novos atores com esse olhar de passado. Mas quem está fazendo moeda social? Quem está fazendo cultura no território? Quem está fazendo o mototáxi? É uma vanguardinha que está na classe C. Porque é tão difícil o encontro entre esses atores? Quais são as tarefas teóricas para os atores que pensam/formulam irem ao encontro desses atores sem o olhar do passado? Que tipo de tarefa tem o formulador, nesse momento do país, para entender um pouco mais essa vanguarda? Como se cria um ambiente para inventar novas categorias por parte de quem formula?

No campo do empreendedorismo e no campo dos formuladores, tem duas coisas mais complicadas. Não se pode esperar o pessoal do ProUni, mas tem de contar com ele. A academia tem pouco oxigênio. Tem pesquisadores entre os melhores do mundo, mas tem poucos insumos para sair desses patamares. A academia europeia não faz ideia do que fazer com a crise hoje. Não há respostas tão consolidadas. O que nos falta é passar de nove para 30% dos jovens na universidade. Eu queria politizar a diversidade, é a partir dela que se valoriza as diferenças e a partir daí se resolve a desigualdade. Trazer a diversidade como arma e estratégia em que se consolidam forças de diferenças. Diferença e desigualdade são a mesma coisa. É a partir da diferença que construo uma possível sociedade numa matriz que não é a que está aí. O baixo oxigênio limita mesmo dentro das variações positivas. A agenda do empreendedorismo já está dentro da OIT. A gente ainda está muito refém dessse paradigma que não vincula empreendedorismo com sustentabilidade. A experiência do mototáxi é de uma engenharia fantástica no sentido de enfrentar um problema e ter solução concreta. O problema é que o ambiente de encontro não está no nosso DNA. Não está nem mesmo no DNA dos espaços populares. É um jogo de aprendizado muito intenso.
Ricardo Henriques, IPP

A palavra é articular. Não é intervir, mas articular. Principalmente com essa nova economia, dá para ser otimista com os novos empresários. Gente que se satisfaz com consumo mínimo. Há novos tipos de relação material que apontam para sinais de uma nova possibildiade de encarar empreendedorismo e sustentabilidade. Menos destrutivos.
Emmanoel Boff, UFF

Vocês mapearam que esse seria um problema (intenções obscuras, que não são colocadas na mesa, quero que meu projeto e meu território estejam em evidência), que muitos compromissos colocados no papel não são cumpridos? Como garantir que esses projetos vão ser cumpridos? Se o o desafio da UPP Social é garantir que compromissos assumidos sejam efetivamente cumpridos, como se garante isso como política pública? Que mecanismos criaram para que os compromissos sejam cumpridos e para que isso tenha um impacto positivo nessa relação de confiança?

O projeto se baseou num diagnóstico em que consultamos a população. Isso foi feito, de fato. Mas a percepção a partir desses processos de escuta é que ainda não estamos com os ouvidos abertos para escutar. Os atores escutam com o filtro das suas intenções. É um processo de amadurecimento que a sociedade ainda não conseguiu superar. É um processo, a democracia nossa é recente, é preciso azeitar melhor as relações. Tem arrogância, sim, mas a sociedade esta capacitada para dialogar. Tem a arrogância dos atores que intervêm e a aposta que se faz no acirramento de um processo de escuta. A prerrogativa é dada pelo interventor, no campo em que ele atua. Vejo com otimismo, acho que há um amadurecimento recíproco. Claro que há segmentos mais sensíveis e outros menos. As empresas se diferem, umas escutam melhor. Mas acredito nesse processo democrático, acho que estamos no caminho certo. Eu respondo com a humildade de quem acredita que está no caminho certo. A aposta que eu faço é que quando a sociedade compra e acredita num projeto, ela exerce um controle social. É difícil, é preciso sentar, inclusive com o governo.
Mariana Meirelles, CEBDS

A vanguarda passa pela escuta e diálogo e por um novo conhecimento do que nos levou à situação em que estamos?

Escuta com diálogo é estar na vanguarda? Imagino que sim. Do ponto de vista das políticas públicas, um dos pilares da UPP Social é criar mecanismos e caminhos para reconfigurar relações de confiança, estar o tempo inteiro atento a como se desconfiguraram as relações de confiança. A ambição é criar, a partir da escuta forte, mecanismos que retroalimentem a escuta pública. A cultura de diálogo. De parte a parte. Há resistência estrutural de uma máquina que em momento algum se dispõe a reconfigurar seus processos. A vanguarda é uma vanguarda que nesse momento processe métodos que, com a prática, a gente consiga dar conta de que se exercite modos de quebrar a armadura da máquina pública. Quebrar essa coisa de que não se estabelece diálogo. Esse é um exercício que precisa ser feito para que no tempo se recomponha essa relação de confiança e o que se estabelece como relação de compromisso seja efetivado. Isso implicará para a máquina pública sair da armadilha do pré-moldado. Sentar no gabinete e definir o que fazer, ir lá e fazer. É evidente que é melhor do que não fazer. No entanto, o fazer uma coisa bem feita não contribui para a vanguarda. Muda para melhor o que acontece. Mas não cria um novo arranjo. O modo de fazer é tão importante quanto o fazer. Fazer bem feito é melhor do que não fazer, mas não produz condições de mudança para essa vanguarda. Isso também não pode ser um ato de vontade do gestor público. É um aprendizado de parte a parte. A máquina pública não sabe fazer isso e a sociedade brasileira também não. Em algum momento do nosso arranjo civilizatório, passamos por esse modo de produção coletiva. A maquina precisa apanhar para reagir de modo consequente. Mesmo a máquina vetorizada, se não sofre tensões, tende à inércia. Isso tudo é legal, é um barato. Na UPP, estamos trazendo o território como ator, há orientação política que pode criar acordos de gestão para dar conta dos compromissos. É fundamental dizer o que não vai se fazer. Construir compromissos e realizar esses compromissos. É como se constroem a confiança do ponto de vista das relações institucionais e as confianças interpessoais.
Ricardo Henriques, IPP

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s