Confiança e vanguarda

Ricardo Henriques, presidente do IPP, no Rio de Encontros sobre Empreendedorismo e Sustentabilidade (Foto: Ariel Subirá)

Ricardo Henriques seguiu o espírito da mesa. Tranquilo mas provocador. Entusiasta assumido do papel da juventude no empreendedorismo da cidade do Rio de Janeiro, deu mostras de que conhece bem as nuances dos territórios minados por onde pisa. Perguntar é mais que preciso.

Afinal, mas de início, o que é empreendeder a partir das comunidades numa sociedade patrimonialista? O que é empreender com sustentabilidade numa sociedade que, inclusive do ponto de vista da agenda privada, está tateando; do ponto de vista ambiental, ostenta um padrão de consumo que beira o vergonhoso; e, do ponto de vista social, se naturalizaram as relações de desigualdade?

“A gente está querendo fazer algumas mudanças? É obvio que o país está progredindo na questão social. Mas a matriz que organizou essa sociedade ainda opera muito fortemente sob o que eu chamo de modelo culinário de organização brasileiro, o velho ‘aumentar o bolo para depois distribuir’. Seguimos o padrão de desigualdade, em que a regra é que os médicos são filhos de médicos. Jovens negros e pobres não fazem a transição, a sua mobildade social. No caso do Rio, isso é ainda mais grave e mais evidente.”

Segundo Ricardo Henriques, a reconfiguração de um tecido social e de uma agenda que esteja vocacionada para empreender e transformar depende de relações de confiança que, por sua vez, se foram precarizando para além das questões ambiental, social e econômica.

“A questão da confiança é chave, porque é com ela que consigo projetar um futuro. A incerteza é o maior problema da economia. O que acontece numa cidade em que as relações de confiança são muito baixas?”, ele também busca respostas.

O exemplo das UPP’s conta. Para Ricardo Henriques, elas deram um passo adiante, mas do ponto de vista do perfil dos potenciais empreendedores, que são os mais jovens, se estabeleceu uma certa indiferença com o futuro. “Se compararmos as juventudes, o ânimo e a capacidade de acreditar que é possível inovar, vê-se que essa crença está muito mais na juventude das comunidades, e muito menos na classe média, que está mais apática, com um certo ar blasè.”

É aí que a educação aparece como questão-chave. “Não há nenhuma sociedade que tenha feito uma grande mudança só com 9% dos jovens na universidade”, pondera o presidente do IPP sobre os índices de acesso ao ensino superior no Brasil. Ainda que a vitalidade esteja latente, é necessário explorar a capacidade de se construir trajetórias mais produtivas.

“Dado esse histórico de desigualdade, os atores, em regra, quando se enfrentam com a possibilidade de apoiar uma agenda de empreendedorismo, passam a fazer isso de forma paternalista. Raramente percebem que há campos potenciais e acabam contendo, na origem, a potência do empreendedorismo. Por outro lado, há uma tendência, dado que se abre uma janela de oportunidade, de se acomodar no modelo vigente do que é empreender. Quem apoia tem visão paternalista e quem entra na janela, olha para o sistema do passado”, ele analisa.

O que está em xeque, segundo Henriques, é uma reconfiguração sem a qual será difícil avançar e dar consistência ao binômio sustentabilidade-empreendedorismo. Considerando que o Rio de Janeiro é uma cidade que tem a diversidade como seu valor essencial, além de um capital paisagem como raros arranjos urbanos no mundo, será possível produzir uma agenda de empreendedorismo que seja menos paternalista e menos conservadora?

“Nessa agenda, é possível disputar a vanguarda, trazer para esse debate a força de incentivar o empreendedorismo e fazer com que esses atores sejam capazes de criticar? Será que esse empreendedor entra na engrenagem de um novo modo de estar no mundo que se discute hoje? O sistema é muito forte, mas tal qual se está discutindo na Rio +20, será que é possível, simultaneamente, criar condições de incentivar o empreendedor, pegar a força criativa que há no Rio de Janeiro e já colocar isso na vanguarda?”, ele questiona. E deixa as interrogações para a plateia.

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