Por que sim ou por que não

A Educopédia funciona? Qual o espaço da creche comunitária? Conselho Tutelar interfere muito? E o Rio de Encontros, que começou com questões como que caminhos trilhar para transformar o quadro de precariedade da educação e como pensar o papel das instituições, dos profissionais de educação e das organizações da sociedade civil, ganhou contornos não mais particulares, mas também filosóficos. Afinal, qual é a  escola que se que se quer?

Claudius Ceccon, Eliana Sousa e Silva, Aristeo Leite Filho e André Ramos. Foto: Ingrid Cristina Pereira

Mediados por Claudius Ceccon, Aristeo Leite Filho, Eliana Sousa e  Silva e André Ramos, assessor de Cláudia Costin na secretaria de educação do  município do Rio de Janeiro, além de falar, também ouviram o que a plateia  levou para a discussão. E responderam.

A Educopédia funciona? Não haveria outro programa que dê
mais autonomia às crianças?

A gente procura ter ações macro e eficazes que é o envolvimento do professor na aprendizagem. A Educopédia, idealizada por Rafael Parente, especialista em novas tecnologias pedagógicas, propõe uma linguagem diferente. Vem para atender  a uma demanda que é tornar as aulas mais interessantes. Há zonas de sombra na cidade do Rio de Janeiro. A educopédia dá mais tempo para que o professor possa planejar melhor a sua aula. Se uma criança troca de uma escola para outra, mantém a estrutura do ensino. Há uma série de atividades realizadas nas escolas em que a própria criança se torna autora, consumidora e produtora de conteúdos.
André Ramos

Por que apesar de todos os esforços e investimentos no CIEP Presidente João Goulart, em Ipanema, os resultados foram aquém do
esperado?

Ao longo do tempo, algumas questões relacionadas às condições dos
professores está muito quém do que podia acontecer. A escola do Cantagalo é um exemplo de uma escola que tem investimento que não se traduz em melhoria de desempenho dos alunos nem dos professores.
Eliana Sousa e Silva

André Ramos, assessor de Cláudia Costin na secretaria de educação do município do Rio de Janeiro. Foto: Ingrid Cristina Guimarães

A verba da educação não vai para educação. Há avanços consideráveis, mas a realidade é outra. Em março, faltavam 132 professores nas escolas da Maré, com um alto índice de licenças
médicas, falta de plano de carreira. Todas as escolas não deveriam oferecer horário integral?

De fato, faltam professores nas escolas da Maré. Muitos professores entram de licença e tentado superar o argumento de que é difícil contratar professores por causa da violência. Muitas vezes, os projetos existem, mas a viabilidade deles dentro dessas áreas depende de articulações como a que foi feita, certa vez, quando era preciso encontrar professores de inglês que trabalhassem nas escolas da Maré.
Eliana Sousa e Silva

Conseguimos lotar todos os professores. Eles se envolvem e tentam recuperar aquele gap, a defasagem. A grande dificuldade de dar aula num ambiente hostil, em que eles não se sentem seguros e as crianças não se sentem seguras. Em relação ao CIEP, tínhamos algumas ações que não estavam ainda contribuindo para a melhoria. Fizemos uma mudança de direção, trocamos o diretor adjunto e diretor da unidade, estamos fazendo um programa de integração de todos os
parceiros. Alunos, professores e os parceiros que atuam nas escolas. É uma
história que sofre resquícios de violência, embora seja uma unidade pacificada. Acreditamos que as notas vão melhorar.
André Ramos

Muitas vezes, a gente esquece que existe uma cultura na escola. Seja uma prova que o próprio professor faça, seja o IDEB, seja uma prova nacional. As avaliações têm de estar a serviço da melhoria da escola. A escola tem de estar compromissada com a aprendizagem e não com o ensino. A gente fica muito preso a números que o IDEB não mede. Deve ter havido coisas que o IDEB não leu.
Aristeo Leite Filho

Por que querem tratar as creches de comunidades como Rocinha como se fossem Copacabana e Ipanema? Qual o espaço da creche na comunidade?

A creche comunitária é um espaço que não pode ser permanente, o estado tem de assumir essa responsabilidade. Ela foi pensada no sentido de luta e resistência e se tornou uma política e único meio de garantir acesso das
crianças à educação infantil. A creche na Rocinha não pode ser diferente da
creche do Leblon. É preciso que todas sejam incorporadas ao município. Estamos na luta para que as creches da Maré deixem de ser comunitárias.
Eliana Sousa e Silva

O estado moderno, não necessariamente o brasileiro, se faz de morto sempre que pode. As creches comunitárias são um movimento da sociedade civil que só o estado brasileiro não reconhece. E foi uma luta de mulheres pobres. As creches têm de ser iguais. A escola tem de deixar de ser espaço e virar lugar. O lugar é marcado sobretudo pelo sentido. A gente precisa construir um mínimo comum, mas um mínimo que é muito alto. Nas creches públicas não há professor. São salas com 25 crianças e 4 auxiliares de creche.
Aristeo Leite Filho

Falou-se muito de identidade e relação entre pobreza e fracasso escolar. Como o espaço pode ser mais acolhedor? As crianças passam mais tempo na escola, como esse espaço pode ser mediador também?

É importante entender que a escola vai adquirindo uma importância como
espaço mediador. O desafio do horário integral, em que você tem atividades que
são acrescidas de fora, experiências de outros espaços que podem dialogar com
as atividades nas escolas. As atividades são incorporadas a um currículo que pensa no aluno com outra perspectiva de sociedade, de ser autonomo, criativo. É
fundamental pensar como a escola se torna também espaço de mediação de
conflitos, de experimentação, transformar num outro sentido o que está sendo
feito. A gente está muito tomado pela questão da tecnologia, mas está deixando
de trabalhar coisas muito mais simples, mais do ponto de vista das relações
humanas.
Eliana Sousa e Silva

Temos trabalhos que vão ajudar as escolas a descobrirem seu espaço mediador, como elas conseguem tornar o ambiente escolar mais favorável ao aprendizado e a formação.
André Ramos

A prefeitura gasta R$ 160 por aluno/mês nas creches. É menos que em São Paulo e Belo Horizonte. As creches estão desistindo dos convênios. As exigências são muitas que a prefeitura faz. Por que?

Estamos recalculando o valor repassado por aluno. É um desafio, queremos ter cada vez mais creches e de qualidade, independentemente da área onde elas estejam.
André Ramos

Alguns pais reclamam que o Conselho Tutelar, às vezes, interfere demais. Qual a relação do Conselho Tutelar com a educação infantil?

O Conselho Tutelar é outra grande questão. Eles se tornaram espaço de lutas políticas. O conselho, de fato, não cumpre sua missão de garantir a proteção à criança. Acho que é um espaço que deveria dialogar muito mais com a escola. A sociedade não entendeu a função do conselho tutelar. E é um espaço contraditório.
Eliana Sousa e Silva

A gente não pode se iludir muito. A escola não deu conta, é um projeto falido. O Conselho Tutelar também é fruto dessa instituição falida. Quando pensa em inglês e esquece da arte, está tentando inventar uma nova instituição. Quando acabou o Império, 85% da população brasileira era analfabeta. É preciso repensar. O que está na lei está bom, a LDB é um espetáculo. Não precisa discutir, precisa fazer.
Aristeo Leite Filho

A cultura ainda está colocada na educação apenas para a representação de conteúdos. A estética do estado é escala. A estética da sociedade civil são pequenas experiências. Como garantir a presença mais profunda da cultura dentro das escolas em vez de
ser apenas uma alegoria?

A cultura existe, sim. A arte é importate, a cultura é importante. Nós temos de trabalhar a  questão da arte e da cultura junto com as escolas, para saber se as atividades que estão sendo propostas se integram ao projeto político pedagógico não se encerre em si mesmo.
André Ramos

A cultura tem a ver com a discussão mais geral sobre a educação que se quer. E arte ser inserida aí não como apêndice. Seria um outro projeto, bem diferente do que a gente tem hoje.
Eliana Sousa e Silva

A educação brasileira tem três princípios: éticos, estéticos e políticos. Escola quer dizer prazer de aprender. Alegria. Mas a escola quer transformar criança em aluno. Aluno é personagem da escola. A tecnologia não pode vir antes de se dar conta do aprendiz.
Aristeo Leite Filho

São visões distintas e diferentes. Se uma visão é mais hegemônica, não significa que não deva haver um diálogo, que não se deva escutar, disse Claudius Ceccon, ao encerrar o debate. Que está apenas no início.

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