Os sem religião, os pluri-religiosos e a árvore evangélica

Se o ser e o crer estão separados em nossa sociedade complexa, a verdade é que muitas vezes a identidade está ligada ao crer. Regina Novaes lembrou que na sua geração, por exemplo, o marxismo substituiu a crença religiosa para muita gente (mas que depois muitos de seus colegas assumiram que iam à missa). A duplicidade de religiões é corriqueira no Brasil, com muita gente se definindo no censo como “católico e do candomblé” e outra parcela experimentando religiões diferentes sem preocupação. “Conheci uma pessoa de 24 anos que já foi católica, tinha ido no Santo Daime, em reuniões kardecistas… O brasileiro tem tendência ao trânsito religioso”.

A Igreja Católica deu o tom de nossos primeiros séculos, influenciando o desenho urbano das cidades (vide a Igreja da Penha, no alto), e dando cartas importantes mesmo depois da separação do Estado, com as santas casas e a educação religiosa nas escolas.

As estatísticas sobre religião não são 100% confiáveis (nem todos os adeptos de religiões afro-brasileiras se sentem à vontade socialmente para declarar isso, por exemplo). Ainda assim, com o tempo foi possível constatar mudanças: a diminuição do catolicismo, o aumento do número de adeptos do protestantismo petencostal e dos “sem religião”. Este último grupo, para Regina, merece ser mais estudado. Ele costuma ser taxativo no repúdio às instituições religiosas. “Mas se a segunda pergunta é ‘Você tem fé?’ a resposta costuma ser sim”. Se autores clássicos como Weber, Marx e Durkheim previram uma tendência à dessacralização, o que se viu nas décadas seguintes foi uma realidade mais complexa.

As famílias pluri-religiosas são cada vez mais comuns, mesmo de diferentes correntes evangélicas. “Quem vê de fora acha que os evangélicos são uma força única. Não são. Pense numa árvore. Ela começa como uma só e depois forma vários galhos. Cada galho evangélico tem sua interpretação do cristianismo”, definiu Regina, lembrando haver inclusive apropriações de classe média, como a Igreja Bola de Neve. O temor de que o crescimento petencostal ameaçasse o Estado laico, tão comum em alguns segmentos, reflete essa tendência a ver um crescimento linear.

Ainda que o catolicismo tenha perdido pontos, ele mostra a força habitual nos momentos críticos da sociedade – foi assim na declaração do Papa na campanha eleitoral, na missa feita no Corcovado após a dominação do Complexo do Alemão e até mesmo na atuação dos carismáticos.

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