Faustini: “Quero ser superficial”

É possível apresentar Marcus Vinicius Faustini de diversas formas. Homem de cultura polivalente, ele é ator, diretor, produtor cultural, fundador de ONGs como a Reperiferia, líder da Escola Livre de Cinema, em Nova Iguaçu, cidade onde foi secretário de cultura. É também escritor, autor do Guia Afetivo da Periferia, livro que promove com empolgação ímpar. Adora divulgá-lo na rua num esquema  “poderia estar roubando, poderia estar matando, mas estou vendendo minha obra”, pegando o possível leitor no susto (parêntese autobiográfico: foi assim que vendeu a esta que vos digita, no dia em que fomos apresentados. Não só comprei, como li, adorei e resenhei). Não satisfeito, ainda transforma o livro em projetos paralelos – recentemente, ganhou uma bolsa para viajar pelo país estimulando outras pessoas a escreverem seus próprios guias afetivos.

Faustini é bom em criar frases emblemáticas. Assim, reproduzi-las aqui é a melhor maneira de dar uma ideia de  como foi a sua fala.

* Sempre fui muito encorajado a circular nas casas das minhas tias. Cresci indo para Cidade de Deus, Jacarezinho… Desde moleque isso me ajudou, hoje vejo que foi um capital muito grande essa ideia de circular pela cidade.

* Sou da época da “intrusão” social, não da inclusão. A gente era sempre meio intruso.

*Fui do partidão, fui do movimento estudantil. Fui da teologia libertação. Fui tentando. Minha mãe queria que eu tivesse carteira assinada, porque pobre tem que ter para conseguir respeito. Pobre quando ganha dinheiro compra casinha ou jazigo, para ter onde cair morto.

* Sou filho da indústria cultural, ela me formou, supriu a deficiência de educação no Brasil.

* Não vamos achar a saída através dos exemplos extraordinários. Os grandes projetos, o grande cantor, a história de superação, essas coisas que são muito pautadas pela mídia são importantes. Mas esse modelo não atende mais a necessidade de mobilidade social do país. É muito importante pensar no ordinário, no comum.

* O pobre é a grande invenção brasileira. Ele já foi o rural, de Vidas secas, depois foi o homem que vem para a cidade e se deslumbra, depois o operário padrão. Tudo isso foi representado de fora pra dentro. Havia a crença de que o discurso catequizador ia mudar tudo. Nos anos 80, eu acreditava muito no discurso, ele me salvou.

* Hoje, prefiro a palavra subjetividade à identidade. A experiência popular tem que ser aceita não só no campo do exótico, mas sim dentro de sua subjetividade, que é igual a de qualquer um de nós.

* Fiz um documentário sobre turmas de clóvis no carnaval. Tem um grupo que fez os desenhos das fantasias inspirados nos sete pecados capitais, usando personagens da Disney. Como é de periferia, parece naif. Se fosse de classe média, seria contemporâneo.

*O que está acontecendo na periferia é tão importante quanto a tropicália, mas o pessoal não é amigo de jornalista.

*Quero ser superficial. A gente não tem que ser profundo, o profundo acaba. A superfície vai longe, faz com que muita gente se apegue ao seu projeto. É preciso pensar em estratégias superficiais.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s