Dragaud: a favor do “social sensual”

Esta foi a primeira edição do Rio de Encontros que não contou com a presença agitadora de Regina Casé na plateia. Mas, por coincidência, ela estava bem representada por um pupilo que não tem nenhuma vergonha de se definir como tal. O roteirista e diretor Rafael Dragaud conta que foi o convívio com a apresentadora, nos anos em que trabalhou nos programas Brasil Legal e Muvuca, que o fizeram perceber a necessidade de prestar atenção no ser humano. “O trabalho da Regina tem algo de social, mas não é categorizado assim na cabeça dela. É interesse genuíno, curiosidade. Ela botaria os guardas de trânsito para dar o rebolation de qualquer maneira, e você é o felizardo de estar com a câmera para registrar isso”, exemplifica.

Transformando admiração em ação, Dragaud passou naturalmente a tentar unir pontas que sempre estiveram separadas. Volta e meia leva algum amigo à favela e lida, sem achar ridículo ou fazer troça, com perguntas como: “Posso ir de carro? Será que tiro o relógio?” Na vida profissional, foi tocando em paralelo duas carreiras: a “oficial”, que já tem 14 anos de TV Globo (além dos programas de Regina, trabalhou no Fantástico e no Som Brasil, entre outros), e a “social”, sendo um dos fundadores da Central Única das Favelas, um dos principais articuladores do Prêmio Hutúz, o diretor do programa Conexões Urbanas, do AfroReggae, e o roteirista de 5 x favela.

Dragaud tinha consciência de que seria um desafio enorme conciliar sua verve pop com o interesse social. Até que fez a produção executiva de Falcão, os meninos do tráfico, documentário de Celso Athayde e MV Bill sobre adolescentes envolvidos com o crime. O filme foi exibido integralmente no Fantástico. Foi a primeira produção independente a ganhar tanto espaço num programa da emissora. “Foi um marco. Tem esse mérito, mas como diz o Faustini, foi um mérito extraordinário. Acabou gerando tanto estresse que nunca mais houve nada parecido. Infelizmente, porque a Globo teria muito a ganhar em replicar outros pontos de vista, coisa que ela não consegue atualmente.”

Hoje, Dragaud consegue suprir as duas necessidades no Conexões Urbanas. “Estou vendo um monte de gente nesta sala, mas temos muita vontade de arregimentar pessoas que não estão aqui. E isso se faz com estratégias de sedução pop. O objetivo de tornar o social sensual norteia o jeito que faço uma vinheta, a música que coloco no programa. Temos que dar status a isso, mostrar que quem é consciente pega a melhor mulher, é popular. Sou a favor deste caminho”.

Mas Dragaud está longe de verdades absolutas. Assume que tem dúvidas sobre o impacto de um programa de TV de denúncia, como o Falcão. “Somos capaz de fazer produtos culturais de denúncia, mas queria entender melhor qual é o alcance disso. Em que resulta? Temos a maior parada gay do mundo, mas nossa estatística de tolerância está longe de ser grande. Qual é o impacto desses produtos culturais em relação a esses assuntos urgentes? Reconheço essa esquizofrenia em mim, faço parte disso.”

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