Os “exemplos lindos” das lan houses

Mario Brandão mostra os números sobre internet no Brasil (Foto: Alex Forman)

A paixão com que Mário Brandão desfia seu leque de “exemplos lindos” – como gosta de classificar – sobre a revolução que as lan houses estão causando nas periferias é tão grande quanto a disposição em mostrar como o poder público insiste em ignorar o fenômeno. Foi assim que criou a associação de donos de lan houses, que reúne cerca de 12 mil integrantes país adentro.

Antes de começar sua fala inicial, ele comentou:

– A gente nunca sabe o entendimento das pessoas que vão nos ouvir. Vieram me perguntar aqui fora o que é lan house. Achei curioso…

Convém, então, explicar. Lan houses são estabelecimentos que nasceram como espaço de acesso à internet, mas hoje expandiram bastante sua área de atuação. Grande febre nas periferias, onde internet em casa é luxo raro, elas foram e são fundamentais para a popularização do acesso à rede mundial de computadores.

Para mostrar a tal febre, Mario levou números. Enquanto 96% da classe A acessa a internet de casa, 74% das classes D e E utilizam lan houses.

– O Brasil não acessa a internet de casa – concluiu ele. – As lans representam 63% de toda a conexão do Nordeste e 59% da do Norte. São mais de 110 mil espalhadas pelo país.

Números expressivos, não é? Espere até saber qual é o nível de formalização dessas casas.

– Das 110 mil, 15 mil têm CNPJ. Mas CNPJ é só o primeiro passo em busca da formalização. Apenas 3.800 têm alvará da prefeitura. E, para completar, essas casas precisam de autorização do juizado de menores. As que têm não chegam a 800. O nível de formalidade não é inerente ao negócio. A diferença é se o Estado entende esses negócios, compreende sua importância e dá condições para eles existirem.

Para mostrar “a distância entre o que a lei pretende e o que acontece na outra ponta”, Mário fez a plateia rir com seu exemplo:

– Pela lei, uma lan house tem que ficar a pelo menos um quilômetro de uma instituição de ensino. Tentamos ver no Google Maps onde, de fato, isso seria possível no Rio. Encontramos duas áreas sem risco: o vão central da ponte Rio-Niterói e o meio da Floresta da Tijuca. Isso mostra como a lei é carregada de preconceito, por tratar lan house como casa de jogo.

E tome de exemplos para mostrar que, na contramão do preconceito da lei, a internet incorporada à rotina está fazendo bem a muita gente, de qualquer classe social ou idade.

– Orkut e MSN revolucionaram a vida de gente que não tinha o menor contato com a comunicação escrita. Cidades inteiras estão se transformando. Trabalhadores como pedreiros e manicures estão fazendo do Orkut sua vitrine, seu mostruário. Teve um dono de lan house em Recife que resolveu estudar para concurso público e deixava atalhos para links relacionados no desktop das máquinas. Com essa simples medida involuntária, atraiu tanta gente que acabou colocando uma faixa “Estude para concurso aqui”.

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