Quantas polícias?

Nogueira deu a visão da polícia (Foto: Alex Forman)

Foram de Aydano Motta e Vera Araújo, jornalistas de O Globo presentes na plateia, as perguntas mais duras para o Capitão Nogueira, um jovem membro da PM que representa bem o perfil de comandantes das UPPs: eles têm em média 30 anos e nove anos de corporação.

– O capítulo da UPP é mais reconfortante que o do Caveirão. Mas esmola demais o santo desconfia. Parece que estão criando uma segunda polícia, que é a que queremos, totalmente diferente da que confunde uma furadeira com metralhadora. Como se juntam essas duas polícias? – indagou Aydano.

Nogueira foi enfático:

– Somos uma polícia, a Polícia Militar. Vivemos um boom de polícia de UPP, a PM abraça a ideia. O que acontece é que pessoas que têm mais aptidão são designadas para a especialidade comunitária. O veículo blindado é opressivo, mas protege muito a vida dos policiais.

Vera também questionou por que a experiência anterior de policiamento comunitário no Babilônia, o GPAE, não deu certo.

– O GPAE foi implementado no Pavão em 2000. Houve problemas: o grupo não conseguia domínio do território, tinha conflito. E não tenho medo de dizer: tivemos problemas de desvio de conduta de policiais, alguns por envolvimento com o tráfico. Não fugimos disso, a PM é a polícia que mais expulsa policiais – respondeu Nogueira.

A conduta policial nas UPPs também mereceu comentários de Willian da Rocinha, que diz ouvir muita reclamação. Jeito de garoto acentuado pelo aparelho corretivo nos dentes, Nogueira mostrou firmeza e não negou a situação, mas explicou que há nuances:

– Desvio de conduta se combate com aplicação da lei. Simples. Mas são 205 homens no Babilônia. 205 cabeças. O policial quer que o morador abaixe o som, que emplaque a moto. O primeiro problema foi o uso de revista, porque eles não estão acostumados a ser revistados. Diziam: “Não sou bandido, não podem me revistar”. Mas é uma prática necessária até os policiais conhecerem os moradores.  Fizemos até a cartilha A polícia me abordou, e agora? para todo mundo entender o que é desvio de conduta e o que não é. O policial tem que se identificar e explicar o objetivo da revista.

O deputado Alessandro Molon (PT) também tocou nas dificuldades de manter a qualidade do policiamento das UPPs.

– Estão acontecendo, sim, desvios de conduta. Há denúncias sobre policiais que estão mexendo com as meninas das favelas de um modo pior que os traficantes. Minha sugestão: é preciso divulgar melhor os resultados das averiguações desses casos e das punições.

Nogueira relatou experiências positivas. Uma de suas iniciativas foi formar um grupo de policiais encarregado de conversar diretamente com membros da  comunidade, para identificar demandas e problemas. Para estabelecer um dialogo mais franco e aberto, os policiais trabalham sem fuzil.  Entre outras questões, eles perceberam que o comando do tráfico ainda está forte no imaginário dos moradores, sobretudo os jovens.

Nogueira também contou como os policiais das UPPs estão sobrecarregados com  demandas feitas pelas comunidades, de solicitações de atendimento médico a coleta de lixo e reparos na rede elétrica.  Uma reação natural de populações de territórios pouco atendidos por serviços públicos, que vê nas forças policias os representantes de um Estado há muito ausente.

Consciente de que tudo isso faz parte de um processo de transição, Nogueira diz onde espera chegar:

– Meu sonho é ser policial não armado. Esperamos não precisar mais usar armas no futuro.

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