Empreendedorismo nas favelas

Conhecido pela implantação dos projetos favela-bairro em várias comunidades do Rio e por suas reflexões sobre cultura jovem e urbanismo, Manoel Ribeiro cunhou uma das frases mais marcantes da manhã:

– Toda cidade tem a cara do salário mínimo regional.

Exibindo um power point com impressionantes imagens urbanas – florestas de parabólicas, piscinas construídas ao lado de barracos – Manoel observou que a discussão sobre favelas é marcada por um erro fundamental:

– Estamos sempre buscando remediar com obras físicas situações causadas por questões sociais.

As favelas são a expressão urbana da dívida social, comentou, lembrando como elas cresceram e se multiplicaram a partir das grandes migrações para as cidades, Migrações que tanto foram resultados de políticas públicas – construção de estradas, implantação de redes nacionais de TV que mostraram ao Brasil as cidades – como da ausência delas.

– Foi um deslocamento de proporções bíblicas, que desafiou os mecanismos de absorção. As cidades não foram capacitadas para urbanizar estas populações, que além de tudo chegaram despreparadas para serem inseridas no mercado de trabalho urbano.

Hoje, as favelas são parte inevitável da malha urbana, cada uma com sua especificidade. Manoel destacou o crescimento da classe média nas favelas, onde muitos dos filhos destes migrantes hoje têm seus próprios negócios e prosperam. Por seus próprios meios, as comunidades substituíram os barracos de madeira que eram maioria nos anos 60 por casas de alvenaria. Numa comunidade como o Santa Marta, com sete mil casas, a R$ 7 mil gastos por casa, isso representa R$ 49 milhões.

– Todo esse investimento foi feito pela população, sem recursos públicos. Imaginem se tivessem recebido ao menos assessoria técnica, o que teria resultado do esforço da população favelada.

Outro aspecto destacado pela urbanista é a diversidade das comunidades:

– As favelas têm papeis diferentes no drama urbano. Algumas são coadjuvantes, meros dormitórios para os trabalhadores da cidade. Outras são protagonistas, como a Serrinha, um centro de resistência da cultura popular, com seus cultos afro, o jongo, etc; e a Rocinha, com sua vocação de centro de serviço 24 horas. Se inesperadamente chegarem parentes de madrugada em casa, pode ir à Rocinha que vai encontrar colchonete, carne e cerveja para fazer churrasco e até um churrasqueiro para contratar.

O urbanista classificou a discussão sobre remoção de comunidades, levantada após as chuvas de Abril e defendida pela Prefeitura carioca, como chover no molhado.

– Isso é só pra jogar poeira nos olhos da gente. É claro que é para remover quem está em área de risco e urbanizar o que é urbanizável.

Ele chamou atenção para a necessidade de avaliar as consequências económicas das remoções:

– Ao remover as famílias para as periferias, é necessário que elas façam deslocamentos maiores para o trabalho, o que resulta em perda de produtividade. Além disso, desorganizam-se as redes sociais de solidariedade e se elimina a possibilidade de outros membros da família ganharem dinheiro na informalidade.  Ou seja, diminui-se a renda e aumentam-se as  despesas.

Para terminar a sua apresentação, o urbanista defendeu um programa que valorizasse o empreendedor da favela:

– Poderiam ser criadas nas favelas zonas de livre empreendedorismo, com benefícios semelhantes aos da Zona Franca de Manaus.

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