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Cidade partida, um conceito que ainda dá o que falar

Plateia e iniciadores debateram o conceito "Cidade partida" (Foto: Alex Forman)

A orelha de Zuenir Ventura deve ter ardido na manhã do dia 25 de agosto. O conceito que batizou seu emblemático livro Cidade Partida, de 1993, apareceu diversas vezes na conversa.

Primeiro, foi citado por Faustini e Claudius de uma forma crítica.

Faustini: “Eu acho que esta cidade não é partida, nunca foi. Os pobres sempre estiveram na vida da Zona Sul, como guardador,como doméstica, atendendo a expectativa da classe média”.

Claudius: “Cidade partida é uma interpretação do Zuenir. Nestes quase 20 anos acho que isso não existe mais”.

Ao longo do papo, entretanto, vozes dissonantes começaram a aparecer. Alguém da plateia lembrou que são poucas as pessoas que fazem a ponte entre os diferentes universos da cidade. A jornalista Anabela Paiva defendeu o conceito: “Acho que a prova de que ele foi forte e oportuno é a sua capacidade de gerar mobilização contrária. Zuenir identificou um sintoma que incomodava e as pessoas até  hoje querem superá-lo. É uma marca de comunicação, um mote”.

Faustini resumiu a situação com exemplos: “Ao mesmo tempo que é uma cidade integrada, que tem conversa da empregada com dona de casa, é extremamente desigual nos direitos. Isso o conceito ajudou a pensar. A gente convive na rua, no bloco, no carnaval, na praia, mas na hora de dividir os direitos, os editais, o acesso, aí as oportunidades são totalmente diferentes”.

À beira da Lagoa, um Rio de Encontros

Não é comum que debates terminem deixando nos participantes a vontade de ouvir e falar mais. O primeiro Rio de Encontros, série de conversas sobre a cidade do Rio de Janeiro Instituto e pelo CESeC, iniciada esta manhã com 42 interessados no tema “Meio ambiente urbano e democracia”, teve esta virtude. Realizada com apoio do Globo Universidade, a conversa na Casa do Saber Rio, na Lagoa, foi encerrada com pena pelo mediador Zuenir Ventura. Dia útil, o relógio exibia implacável que a manhã já se acabara. Mas os debatedores Eliana Sousa, Manoel Ribeiro e William “da Rocinha” Oliveira ainda teriam muito a dizer.

E a plateia também. No café da manhã que antecedeu o debate, alguém disse ao urbanista Manoel Ribeiro que naquele encontro “a plateia era tão importante quanto os debatedores”.

– Já percebi. Alguma coisa está fora da ordem – brincou Manoel.

O mediador, Zuenir Ventura, concordou:

– Nunca falei para uma plateia tão seleta quanto esta.

Realmente, nós que organizamos o evento não poderíamos estar mais felizes: o grupo reunido foi maravilhoso. Até o candidato ao governo Fernando Gabeira (PV) arrumou tempo para assistir a parte da conversa. A apresentadora de TV Regina Casé, o secretário de Cultura Marcus Faustini, a colunista de O Globo Flávia Oliveira, o diretor do Observatório de Favelas, Jailson Sousa e Silva, a vereadora Aspásia Camargo e o secretário executivo do Iser, Pedro Strozenberg comentaram o tema. A proposta do debate: experimentar um novo formato de discussão, em que uma audiência qualificada pudesse dialogar intensamente com os palestrantes.
Eliana Sousa abriu o diálogo com um depoimento sobre sua experiência. Nos anos 70, ela e sua família fizeram parte das levas de migrantes que vieram tentar a vida nas metrópoles do Sudeste. Radicaram-se na Nova Holanda – hoje uma das comunidades da Maré, na época um dos centros de habitação provisória construído pelo governo para abrigar moradores deslocados nas remoções de favelas praticadas nos antes anteriores. Eliana assistiu à tentativa dos moradores – e da sua própria famílai – de tornar aquele espaço improvisado, onde faltavam os serviços mais básicos, em um lugar digno para viver.

– A maneira com que me inseri no Rio me tornou tudo o que eu sou.

A fundadora da Redes da Maré ressaltou a necessidade de pensar as decisões sobre o uso do solo sob nova perspectiva:

– Sempre que é preciso pensar em iniciativas para favelas – seja remoção, seja a realização de grandes obras – a ênfase é sempre nas questões políticas, económicas e de desenvolvimento. Não se leva em conta o aspecto humano – a vida que estes moradores construíram naquela comunidade.