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A lan house como creche e cartório

Regina Casé dá sua opinião do meio da plateia (Foto: Alex Forman)

No mundo ideal de Regina Casé, o Estado entederia que, ao invés de boicotar o potencial aglutinador das lan houses, a melhor coisa a fazer seria deixar esses espaços seguirem suas vocações. Sim, para ela esses estabelecimentos têm vocação para creche, cartório e centro de reforço escolar, como já mostrou em sua série no Fantástico. Com a palavra, a comunicadora:

– Às vezes tem coisa legal que está funcionando e não é aproveitada com a chegada do Estado. A lan house segue o mesmo percurso do funk. Sempre tem uma lan house na subida do morro, que junta gente lá de cima e do asfalto. Aí acaba sendo empurrada para dentro da favela, aí começa a ter uso indevido… E volta para o asfalto como “coisa de bandido”. Mas é lugar de fazer currículo, fazer matrícula na escola. O dono da lan house é como um dono de creche! São dez funções boas para uma ruim, e a ruim criminaliza tudo. Devia haver processo rápido de formalização, se transformar quase num cartório, ter parceria com as escolas, ser utilizada como reforço escolar, com monitores para tirar dúvidas de português e inglês. Pequenas coisas que poderiam gerar uma boa repercussão em tempo mínimo! É crime criminalizar lan houses!

Os “exemplos lindos” das lan houses

Mario Brandão mostra os números sobre internet no Brasil (Foto: Alex Forman)

A paixão com que Mário Brandão desfia seu leque de “exemplos lindos” – como gosta de classificar – sobre a revolução que as lan houses estão causando nas periferias é tão grande quanto a disposição em mostrar como o poder público insiste em ignorar o fenômeno. Foi assim que criou a associação de donos de lan houses, que reúne cerca de 12 mil integrantes país adentro.

Antes de começar sua fala inicial, ele comentou:

– A gente nunca sabe o entendimento das pessoas que vão nos ouvir. Vieram me perguntar aqui fora o que é lan house. Achei curioso…

Convém, então, explicar. Lan houses são estabelecimentos que nasceram como espaço de acesso à internet, mas hoje expandiram bastante sua área de atuação. Grande febre nas periferias, onde internet em casa é luxo raro, elas foram e são fundamentais para a popularização do acesso à rede mundial de computadores.

Para mostrar a tal febre, Mario levou números. Enquanto 96% da classe A acessa a internet de casa, 74% das classes D e E utilizam lan houses.

– O Brasil não acessa a internet de casa – concluiu ele. – As lans representam 63% de toda a conexão do Nordeste e 59% da do Norte. São mais de 110 mil espalhadas pelo país.

Números expressivos, não é? Espere até saber qual é o nível de formalização dessas casas. Continue lendo

As veias informais do Rio de Janeiro

Em uma análise rápida, a informalidade nas relações comerciais e trabalhistas é vista como um problema. Mas basta aprofundar a perspectiva para ver que a questão é mais complexa do que parece, inclusive na sua ligação, nem sempre distante, com o mundo formal. A terceira edição do Rio de Encontros discutiu “O encontro entre o formal e o informal: novas perspectivas para uma cidade integrada”, com mediação do arquiteto Manoel Ribeiro (leia seu texto de abertura no próximo post). Como sempre na Casa do Saber, como sempre com a participação de uma plateia tão interessante e participativa quanto as pessoas convidadas a iniciar o debate.

– Não parece adequada a separação entre formal e informal na cidade contemporânea. As duas esferas estão muito ligadas, uma influencia a outra. Não estamos falando de uma informalidade que atinge as beiradas da sociedade. É uma massa de natureza não só econômica, mas também social, política e cultural – afirmou o arquiteto Sergio Magalhães, presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RJ) com várias passagens pelo poder público, como no projeto Favela-Bairro.

Os outros iniciadores do debate deram exemplos que reforçaram esta constatação de Sérgio.  Para Mario Brandão, dono de lan house e membro da associação que reúne 12 mil representantes deste segmento, as leis atuais ajudam a empurrar este tipo de negócio para a informalidade, a partir de uma visão preconceituosa que o classifica como “casa de jogos”.

Hélio Aleixo, atual secretário de Cidade de Nova Iguaçu, apresentou-se dizendo que estava ali para falar como empreendedor da Maré, já que mantém uma distribuidora de bebidas na área há mais de vinte anos. Depois de explicar que os negócios de sua família são alguns dos poucos formalizados na região, afirmou:

– Não existe nenhuma ação de fiscal, ali só se legaliza quem quer.

Já Fabio de Oliveira, voz da prefeitura do Rio no encontro por meio do Instituto Pereira Passos (IPP), explicou o que o poder público está fazendo para convencer os empreendedores de que a formalização é a melhor estratégia.

Próximo encontro: a questão da informalidade

O Rio de Janeiro está vivendo um momento especial, tentando encarar seus problemas mais graves de frente, seja o poder paralelo do tráfico de drogas nas favelas, seja a falta de infraestrutura inconcebível para uma futura sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Neste contexto, a questão da informalidade merece ganhar uma discussão especial. Como encarar a realidade de que milhões de pessoas sobrevivem sem participar do setor formal? Quanto da nossa vida depende do setor informal? Os governos devem reprimir a informalidade ou apoiar os empreendedores populares, apostando em uma nova articulação entre a cidade formal e a informal? Como repensar os limites entre criminalidade, ilegalidade e informalidade? Estas e outras questões vão estar em pauta na próxima conversa do Rio de Encontros, na Casa do Saber do Rio de Janeiro.

Com o nome “O encontro entre o formal e o informal: novas perspectivas para uma cidade integrada”, o debate vai contar, como sempre, com “iniciadores” – uma vez que a ideia é que a plateia participe ativamente da conversa – de diferentes áreas e pontos de vista. Os convidados são Sérgio Ferraz Magalhães, ex-secretário municipal de habitação e atual presidente do IAB-RJ; Fábio de Oliveira, engenheiro e diretor de desenvolvimento econômico do Instituto Pereira Passos, com experiência no setor de tecnologia; Hélio Aleixo, engenheiro e atual Secretário da Cidade do município de Nova Iguaçu, com vasta experiência em gestão pública; e Mário Brandão, administrador, dono de lan house e responsável pela comunidade que reúne proprietários de lans e cyber cafés a fim de estimular a disseminação de boas práticas no ramo. A mediação será do arquiteto e urbanista Manoel Ribeiro.

Antes do começo da conversa, uma pesquisa sobre informalidade e especulação imobiliária nas favelas vai ser apresentada por Andrea Pulici, assistente do economista Pedro Abramo no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (Ippur) da UFRJ. Andrea é autora, juntamente com o Pedro Abramo, do artigo Vende-se uma casa: o mercado imobiliário informal nas favelas do Rio de Janeiro, que constituti um capítulo do livro Favela e mercado informal: a nova porta de entrada dos pobres nas cidades brasileiras,  em breve também disponível para download gratuito no portal Habitare.