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Provocações

Eliana Sousa e Silva: "Vocês estão produzindo muito conteúdo, mas o que é feito depois com isso?" (Foto: Kita Pedroza)

Nem só de falas positivas foi feito o Rio de Encontros. Havia alguma tensão no ar, como o incômodo de Fiell com a fala dos Parceiros do RJTV, projeto que ele considera limitado. Houve também uma provocação construtiva de Eliana Sousa e Silva: “Vocês estão produzindo muito conteúdo, mas o que é feito depois com isso? Que outros usos podemos dar para esse material? Nossa parceria com a Redes da Maré vai levar o jornal para as escolas do Complexo, será que isso pode ajudar? Por um lado sabemos que os professores estão lotados de informação, mas esse material pode ser útil para discutir nas aulas. Por que, indo mais longe, não desenhamos um projeto de cobertura integrada de grupos para o Rio + 20, que vai acontecer ano que vem?”

Houve ainda o desabafo do jornalista Guilherme Amado, setorista de UPP do jornal Extra: “Mídia convencional não é estrutura monolítica em que um ser superior decide. Vocês podem participar ativamente, têm que ter os celulares dos editores. Já fui acordado pelo Fiell várias vezes. Temos que trabalhar juntos para que ela seja melhor, não acho que ela seja um vilão”. Guilherme citou o caderno de fim de semana do jornal, que listou eventos culturais em favelas com UPP. Flavia Oliveira ponderou: “Concordo com você que tem intolerância de parte a parte. Tem morador de favela que tem visão preconceituosa. O ponto é: por que uma programação de favela só numa edição, temos que avançar, incluir, o subúrbio, a zona oeste, que não estão contemplados na programação cultural”.

Um mundo de gente

Foto de Kita Pedroza

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A edição de junho do Rio de Encontros foi, possivelmente, a mais cheia e animada da história do evento. O tema Mídia nas Favelas atraiu muita gente que participa de projetos comunitários de comunicação e pessoas de outras áreas que se interessam pelo tema. Assim, o esquema do debate – ter iniciadores do palco, mas enfatizar o diálogo entre todos na plateia – nunca fez tanto sentido.

Já no café da manhã, diversos jovens comunicadores se espalhavam pelo salão, conversando animadamente. Alguns também preparavam suas câmeras e gravadores para registrar o evento. O papo, mediado com desenvoltura pela jornalista d’O Globo Flavia Oliveira, contou com iniciadores tarimbados: Guilherme Canela, diretor de comunicação da Unesco; Marisa Vassimon, gerente de mobilização comunitária do Canal Futura, e Mayra Juca, coordenadora de comunicação do Viva Rio e do Portal Viva Favela.

Pelas cadeiras do auditório da Casa do Saber estavam alguns dos principais responsáveis pelo enorme crescimento da mídia popular em áreas diversas da cidade (seja favelas, subúrbio ou Baixada): Dudu de Morro Agudo, do grupo Enraizados; Eliana Souza, da Redes da Maré; Fiell, Zé Mário e Francisco, da Rádio Comunitária do morro Santa Marta; Maria do Socorro, do Portal da Cidade de Deus; Don, fotógrafo e blogueiro da Cidade de Deus; Lana, Thiago e Gisela, parceiros do RJTV; Marina e Luiza, do Núcleo Piratininga de Comunicação; Milton Quintino, do Correspondentes da Paz; Luiz Henrique Nascimento, do Observatório de Favelas; João Roberto Ripper, da Agência Fotográfica Imagens do Povo; Julia Michels, do Rio Real Blog; Jean Jacques Fontaine, do Projeto Jequitibá. Todos contaram um pouco de suas experiências e viram muitas semelhanças em suas trajetórias, tanto nas coisas boas quanto nas dificuldades.

E eles não foram os únicos a pedir a palavra. Leona Forman, da Brazil Foundation, contou que está trabalhando na abertura de um fundo carioca, para receber doações para projetos sociais da cidade. E Guilherme Amado, jornalista do Extra, fez um desabafo em relação à vilanização a que sua classe é submetida frequentemente, gerando o momento mais quente do debate.

Nos próximos posts, mais detalhes da conversa.

Os jornais e a classe média

Flavia Oliveira: redações de classe média (Foto: Alex Forman)

“O JB não tinha esquema de assinatura para além do Méier.” “Se a Rocinha fosse em Rocha Miranda o jornal não ia se importar com o que acontece lá.” Frases como estas pipocaram durante o debate, levantando uma questão incômoda para jornalistas e leitores: como fazer para que as publicações não reproduzam as limitações da visão da classe média?

Flavia Oliveira, titular da coluna Negócios & Cia. do Jornal O Globo, pediu a palavra da plateia para comentar: “As redações são formadas pela classe média, falando para classe média. Vemos recém-formados bem preparados, que dominam novas tecnologias, falam línguas, mas não sabem onde é a Saara. Quem chega assim na redação reproduz esse estranhamento. Por outro lado, as equipes circulam cada vez menos. A cobertura ficou muito distanciada da realidade.”

Fernando Molica foi além, ao dizer que os jornais acabam reproduzindo a visão dos leitores que “enxergam os pobres como problemas”. Um exemplo da distorção, para ele, foi o caso da morte do filho da Cissa Guimarães. “Uma coisa que me irritou foi ver as pessoas indignadas com a corrupção da PM mas muito tolerantes com o pai que propôs a grana e tentou destruir provas. Os jornais acabam absolvendo um corruptor ativo porque há uma identificação de classe, a classe média”.

Os exemplos são muitos e a pergunta, uma só: como ter diversidade nas coberturas? Gustavo de Almeida chamou atenção para a blogosfera policial, que merece atenção dos jornalistas. A integração com o jornalismo cidadão também pode ser uma saída, na visão de Marcelo Moreira. Vendo a quantidade de jornais comunitários citados no encontro, ele afirmou que vai pensar em um projeto para aproveitar essa mobilização de alguma forma no RJTV. Vamos torcer para que este seja mais um fruto deste Rio de Encontros!

Em defesa do pragmatismo

A visão de Aspásia sobre o futuro carioca deixou muita gente angustiada. Flávia Oliveira, colunista de O Globo, expressou o sentimento de parte da platéia:

– Eu me recuso a acreditar que daqui a 20 anos vais estar pior. Estamos melhorando.

A titular do Informe Econômico fez uma defesa do que chamou de “pragmatismo” nas políticas públicas. Ou seja: oferecer alternativas aos cidadãos que permitam que eles façam as escolhas mais convenientes para a sua vida. Programas urbanísticos, educacionais e de saúde flexíveis, que ofereçam autonomia aos usuários.

Se ganharem essa complexidade, as políticas públicas podem ser mais bem sucedidas, acredita Flavia.