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Mediação com carteira assinada

Joabe, do Batan, dá seu depoimento (Foto: Clayton Leite)

Os quatro mediadores do projeto que subiram ao pequeno palco com Faustini também falaram bastante de suas expectativas. Todos eles têm função-chave para que a agência funcione em suas comunidades e foram contratados com carteira assinada (“senão a mãe ainda diz para ele ir procurar um emprego de verdade, alimenta o estigma da cultura”, explicou Faustini). Na plateia, muitos outros participantes (alguns deles egressos da Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu) interagiram na conversa.

Artur, do Babilônia/Chapéu Mangueira, é coordenador de audiovisual do ponto de cultura Ary Barroso, onde funciona um cineclube. Marcio, da Cidade de Deus, trabalha com crianças e adolescentes numa ONG. Diego, do Borel, é jornalista e trabalha no projeto Correspondentes da Paz, do Iser. E Joabe, do Batan, trabalha no Transfusão Noise Records, que grava bandas da Baixada. O seu depoimento foi o mais incisivo, apontando os desafios que aquela comunidade enfrenta. “Lá não tem cineclube ou exposições, não há acesso direto à arte”, resumiu.

Major Eliezer fala dos desafios do Batan (Foto: Clayton Leite)

Foi a deixa para a cientista social Silvia Ramos pedir a palavra, lembrando que uma pesquisa etnográfica feita no Batan mostrou que não existiam praticamente projetos sociais por lá. Distante da área central da cidade e sacrificada pela ação da milícia, a comunidade vê com esperança a chegada da UPP, que começa, lentamente, a mudar o cenário local, como contou Joabe: “Lá tem muita gente desmotivada. Mas já tem gente que me para na rua para saber o que vai acontecer no próximo sábado”.

Faustini comentou ainda que houve um incidente no estúdio da Cidade de Deus no último sábado. Um policial interrompeu uma dinâmica para abordar um rapaz que seria egresso do tráfico, mas não estava em medida sócio-educativa e, portanto, não devia nada ao Estado. Os policiais presentes logo afirmaram que o colega não agiu corretamente. “Isso não deveria acontecer, vamos chamar atenção para haver mais cuidado”, garantiu o capitão Nogueira.

A visão de quem é vizinho de uma UPP

Percília mostrou otimismo com a UPP (Foto: Alex Forman)

Dona Percília vive há 62 anos no Morro da Babilônia, no Leme. Há décadas, realiza um trabalho exemplar na coordenação de um espaço dedicado ao reforço escolar, que se mantém com verba da Suécia. De expressão séria e tímida, ela mostrou segurança quando pegou o microfone para contar como está encarando a vizinhança de uma UPP.

– Nós vivíamos em paz mesmo com o tráfico, eles nunca atrapalharam o trabalho comunitário. Mas a favela foi invadida e ficamos mal. Então chegou a polícia para jogar água no fogo. Com a UPP melhorou porque convivíamos com bandidos com armas. Mas na minha opinião pode melhorar muito mais.

Carlos Palo, filho de Percília, contou uma história que ilustra como negociação e entendimento, se promovidos pelas forças sociais e oficiais, podem reduzir conflitos. Após a abordagem de um policial,  foi parar na delegacia para reclamar de desvio de conduta. Graças à habilidade da delegada, a conversa foi ótima, a queixa esquecida e os dois, o policial e Palo, saíram quase abraçados.

Para Carlos, segurança não basta (Foto: Alex Forman)

O vice-presidente da Associação de Moradores da Babilônia também pediu a rápida intervenção do Estado para garantir serviços à comunidade.

–  A ausência de ação social incomoda as pessoas. Depois de um ano ainda estamos pedindo, faltou planejamento mínimo. Mas entendemos que foi uma situação emergencial – observa Carlos. –  Se o governo não estiver próximo,  vocês vão criar mil projetos e não vai dar certo. Queremos uma comunidade integrada com o asfalto, com água, coleta de lixo. Não estamos fazendo um favor, nós votamos também. Queremos política pública como a de todos, não diferente, senão criamos um novo apartheid. Nunca acreditei em Robin Hood na época do tráfico. Mas agora não adianta ficar só filosofando, senão as coisas não andam.